Quando olhamos a situação do mundo ao nosso redor , no celular , na televisão , no jornal ou nas ruas , nos deparamos com um dos principais perigos que enfrentamos nesta era , a crescente onda do ultraconservadorismo e da direita radical se transformando no fenômeno do neofascismo . Está sendo ingênuo quem pensa que é algo longe ou distante , subestimando esta ameaça a vida . Há uma frase da segunda guerra mundial que diz ” primeiro levaram os judeus , depois os negros e os homossexuais , depois as mulheres , mas não me importei pois não era eu , quando vi , não havia sobrado mais ninguém . ” Gostaria de acrescentar que em nova forma , há novos alvos , sendo mais descaradamente atacados os refugiados , imigrantes e pessoas trans.
Podemos notar uma nova onda de partidos e líderes de extrema direita em crescimento desde a Segunda Guerra Mundial, ocorrendo a normalização de suas falas e direitos de discursos anti-imigração. Até mesmo a Alemanha, que desde os horrores do nazismo era uma exceção, se demonstrou ser mais um campo do surgimento do neofascismo.
O partido Alternative für Deutschland (AfD, Alternativa para Alemanha) em 2013, ano de sua fundação, teve no total 4,7% dos votos, não conseguindo entrar no parlamento (Bundestag), porém, conforme os anos foram passando, ideias de um reacionarismo começaram a emergir e tiveram seu ápice com a convocação de eleições antecipadas após o
colapso da coalizão entre o Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD, Partido Social Democrata da Alemanha), Die Grünen (Os Verdes) e Freie Demokratische Partei (FDP, Partido Democrático Livre), chegando a ocupar 20,8% das cadeiras, ficando atrás apenas do partido Democrata Cristão (CDU). Em maio, o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV, o Gabinete Federal para a Proteção da Constituição) o classificou como uma entidade extremista que atenta contra a democracia, considerando o partido racista, antimuçulmano e desvalorizando os segmentos inteiros da
população alemã. Essa decisão demonstra ainda mais a expressiva movimentação de diversos grupos neofascistas, indivíduos com James David Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e o secretário de Estado, Marco Rubio, foram críticos a decisão da BfV. Não é por acaso que Alice Elisabeth Weidel até antes da classificação já recebia suporte
de diversos campos do governo Trump, como Elon Musk, que a entrevistou na plataforma X, discursando em um comício da AfD, criticando a “culpa histórica” dos alemães pelo seu passado, além de pedir votos para o partido de extrema direita. Tendo posto toda essa movimentação, é necessário discutir não somente como a Europa
sofre dos discursos de extrema direita, mas como as Américas estão. Isso é presente ao observar o anúncio do governo Trump no dia 7 de julho de 30% de taxas para o México e a União Europeia e, no dia 9 de julho, de 50% nas tarifas de produtos brasileiros importados para os
Estados Unidos, explicitando o caráter colonialista.
Muitos aspectos podem ser motivos da decisão, alguns apostam no encontro recente do Brasil no BRICS, que é uma alternativa à dominância dos Estados Unidos, ou um mecanismo de defesa dos EUA em relação as siderúrgicas como a de aço, pois o Brasil tem a capacidade
de gerar produtos mais baratos. Porém a resposta oficial de Trump foi em defesa de Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente que está sendo indiciado por organização criminosa armada; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de Estado; dano qualificado pela
violência e grave ameaça contra o patrimônio da União, e com considerável prejuízo para a vítima e deterioração de patrimônio tombado.
Esses crimes são consequência dos atentados de 8 de janeiro, momento marcado pela tentativa de tomada de poder na Praça dos Três Poderes, em Brasília, a defesa de Trump para com Bolsonaro não acontece de maneira aleatória, em 2021, no dia 6 de janeiro, ocorreu os ataques ao Capitólio dos Estados Unidos, que foi movido por partidários de Donald Trump
contra o estado democrático, ambos os incidentes demonstram as atitudes reacionárias contra o estado, criando inimigos, no Brasil com o comunistas, nos EUA tendo alvo os imigrantes, tirando o direito de serem ouvidos e sim julgados.
Um mal que esteve escondido durante varias décadas está rapidamente saindo da sombra da obscuridade e vindo a tona , arrastando vidas em seu caminho e ganhando cada vez mais seguidores . Não pela ordem , e se isto for ordem , já passou da hora de ser destruída , mas pelo ódio . O Fenômeno do fascismo é o mecanismo de defesa do capitalismo e sua etapa em ápice , caracterizado pelo militarismo , autoritarismo , culto a personalidade e a um passado histórico distorcido , e pela opressão e aniquilação de opositores , tanto revolucionários comunistas , anarquistas ou independentes mas principalmente com minorias ; que julgam ser a escória da sociedade , quando são os grupos marginalizados e perseguidos ao longo dos séculos por não se enquadrarem na norma vigente, senão milênios , mas que resistem . O Fascismo , e não devemos ter medo de chamar o inimigo pelo nome , não está somente nos altos escalões , em elites que nunca viram na vida , mas no cotidiano , no pensamento e na prática de pessoas comuns que vivem ao seu redor . é uma ameaça que não deve ser subestimada , uma ameaça a vida , e que vale a pena lutar , pois onde há opressão a existência , há resistência
Um século depois de Mussolini marchar com seus camisas pretas nas ruas de Roma sob o lema Deus , Pátria e Família ( qualquer semelhança não é mera coincidência ) , em 25 de Setembro de 2022 Giorgia Melloni chocou o mundo , mas não o surpreendeu , ao se tornar primeira-ministra da Itália , eleita pelo Partido de Direita Radical do país , herdada diretamente do partido fascista que vigorou em sangue na primeira metade do século XX , mudaram seus rostos , suas roupas , seus nomes , mas não se enganem ao acharem que não são os mesmos . O próprio Mussolini , líder do fascismo italiano , já fez parte do PCI ( partido comunista italiano ) como editor e jornalista , trabalhando ao lado de um dos maiores teóricos marxistas que já viveu , Gramsci , e justamente depois de sair do Partido e fundar um dos maiores horrores presenciados pela humanidade , traiu seu ex-colega prendendo em cárcere por mais de 10 anos . Assim como agora aconteceu com Giorgia Melloni , que se elegeu sob um discurso mesmo que liberal , progressista e feminista , e ao tomar o poder tirou a mascara traindo suas falas falsas e perseguindo movimentos de esquerda , minorias , refugiados e imigrantes . Pois é assim que age o fascismo , uma retórica popular , atraindo seguidores sob um ódio disfarçado de salvação , mas quando nos damos conta , já é tarde demais .
O Neofascismo na França: Entre a Memória do Passado e os Riscos do Presente :
A França, berço da Revolução de 1789, dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, vive hoje uma inquietante contradição: o crescimento acelerado de forças políticas de extrema-direita que reatualizam discursos autoritários, racistas e xenofóbicos. O neofascismo francês não é apenas uma nostalgia do passado, mas uma força viva que se alimenta das crises contemporâneas e da erosão dos valores democráticos.
Raízes históricas: do colaboracionismo ao lepenismo
O fascismo não é estranho à história francesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, o regime de Vichy, liderado por Philippe Pétain, colaborou com o nazismo, promoveu perseguições a judeus e implementou políticas autoritárias. Após a guerra, embora o fascismo “clássico” tenha sido derrotado, suas ideias não desapareceram — apenas se reorganizaram.
A Frente Nacional, fundada por Jean-Marie Le Pen em 1972, foi o principal veículo dessa reorganização. Através do uso do nacionalismo extremo, da islamofobia e da criminalização da imigração, o partido construiu uma base sólida no eleitorado francês. Sob a liderança de sua filha, Marine Le Pen, o partido (hoje rebatizado como Rassemblement National) passou por um processo de “desdemonização”, mas manteve o núcleo duro de suas ideias xenofóbicas e autoritárias.
A nova roupagem do fascismo: identitarismo e securitarismo :
O neofascismo francês do século XXI não se apresenta com as camisas negras do passado. Ele surge com um discurso aparentemente moderado, travestido de “patriotismo”, “segurança” e “defesa dos valores ocidentais”. Alimenta-se do medo — do “outro”, do “imigrante”, do “muçulmano” — e propõe soluções simplistas e autoritárias para problemas complexos. Ao mesmo tempo, movimentos como o de Éric Zemmour, jornalista e candidato nas eleições de 2022, expõem uma radicalização ainda mais explícita: negacionismo histórico, racismo biológico, islamofobia aberta e exaltação de figuras do colonialismo e da repressão francesa. Seu discurso tenta reconstruir um imaginário nacional branco, cristão e “puro”, combatendo frontalmente os ideais do republicanismo universalista.
Crise social e captura da raiva popular
A ascensão do neofascismo está intimamente ligada às condições materiais da população. O desemprego, a precarização do trabalho, a crise da moradia, os cortes nos serviços públicos e o abandono das periferias criaram um terreno fértil para o ressentimento e o medo. A extrema-direita capturou essa raiva popular, canalizando-a contra os mais vulneráveis, especialmente os imigrantes e descendentes de imigrantes, enquanto os verdadeiros responsáveis — os grandes grupos econômicos, os políticos neoliberais e o sistema financeiro — seguem intocados. Essa lógica perversa foi visível nas eleições legislativas de 2024, quando o Rassemblement National obteve resultados históricos. Apesar de não ter conquistado a maioria absoluta, tornou-se a principal força política da França — um cenário impensável décadas atrás, mas hoje absolutamente real.
Resistência democrática e o papel da memória
O avanço neofascista na França tem gerado uma reação significativa. A formação de frentes amplas, como o Novo Frente Popular, que impediu a vitória total da extrema-direita nas últimas eleições, mostra que ainda há força nos valores democráticos e populares. Movimentos sindicais, estudantis, de imigrantes e antifascistas continuam mobilizados nas ruas e nas redes.
Entretanto, a luta contra o neofascismo exige mais do que alianças eleitorais. É preciso reconstruir a confiança da população nas soluções democráticas e populares. Isso passa por políticas públicas reais, mas também pela disputa cultural e simbólica. A memória da ocupação nazista, da luta antifascista e do colonialismo francês não pode ser silenciada — ela é parte fundamental da luta atual.
um alerta para a Europa e o mundo
O que acontece na França não é um fenômeno isolado. O avanço da extrema-direita em países como Itália, Alemanha, Hungria, Argentina e Brasil mostra que estamos diante de um novo ciclo autoritário global. O neofascismo francês, com sua sofisticação ideológica e poder eleitoral, é um dos exemplos mais perigosos dessa nova era.
Combater o neofascismo não é apenas uma questão política — é uma questão civilizatória. Defender a democracia, os direitos humanos e a diversidade exige coragem, organização e memória. Porque, como nos ensinou Walter Benjamin, “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer”.
Neofascismo na Alemanha: O Retorno do Passado sob Nova Máscara
A Alemanha do século XXI enfrenta um paradoxo inquietante: enquanto mantém uma das legislações mais rígidas contra o nazismo e promove políticas de memória sobre os crimes do Terceiro Reich, vê ressurgir — com força crescente — movimentos e partidos que reatualizam, com nova roupagem, os pilares do fascismo. O neofascismo alemão representa hoje uma ameaça real à democracia, à diversidade e à paz social no coração da Europa.
Fantasmas do passado: o peso do legado nazista
Desde a queda do regime nazista em 1945, a Alemanha Ocidental (e posteriormente a unificada) construiu um sistema político fundado na “desnazificação” e na memória do Holocausto. A educação, os monumentos, os museus e as políticas públicas buscaram evitar o esquecimento — e impedir que o horror se repetisse.
No entanto, mesmo durante a Guerra Fria, células neonazistas e nacionalistas continuaram ativas, muitas vezes toleradas ou ignoradas pelo Estado. Após a reunificação, em 1990, a extrema-direita encontrou terreno fértil nos antigos estados da Alemanha Oriental, onde o desemprego, a marginalização econômica e o colapso do modelo socialista criaram ressentimentos e frustrações.
A AfD e a institucionalização do neofascismo
O principal expoente do neofascismo alemão contemporâneo é o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), fundado em 2013. Inicialmente centrado na crítica ao euro e à União Europeia, o partido logo assumiu um discurso abertamente xenofóbico, islamofóbico e ultranacionalista — capitalizando, sobretudo, sobre a crise migratória de 2015. A AfD cresceu rapidamente, tornando-se o maior partido de oposição no Bundestag em 2017. Em diversas regiões do leste do país, já é a força mais votada. Embora tente se apresentar como um partido “patriótico conservador”, abriga alas radicais com vínculos diretos a grupos neonazistas, milícias e movimentos extremistas como o Reichsbürger (cidadãos do Reich), que negam a legitimidade da República Federal e sonham com a restauração do Império Alemão.
Em 2024, a AfD foi classificada como uma organização sob vigilância pelos serviços de inteligência internos por ameaçar a ordem democrática — algo inédito para um partido com assento parlamentar.
Elementos do neofascismo contemporâneo na Alemanha
O neofascismo alemão atual possui características específicas, mas ressoa elementos universais do fascismo histórico:
Racismo e nacionalismo étnico: Defesa de uma “Alemanha para os alemães”, rejeição da imigração, e teorias conspiratórias sobre a substituição populacional (“great replacement”). Autoritarismo e desprezo pela democracia liberal: Críticas à imprensa, ao Judiciário, ao parlamento e aos partidos tradicionais, com apelo à “vontade do povo” contra as “elites corruptas”. Violência simbólica e física: Aumento de atentados, ameaças a jornalistas, políticos progressistas e imigrantes. Casos emblemáticos como os ataques em Halle (2019) e Hanau (2020) mostraram a letalidade do ódio racial alimentado por esses grupos.
Revisão histórica: Tentativas de minimizar os crimes do nazismo, elogiar aspectos do regime de Hitler ou questionar a necessidade da “culpa histórica” alemã. As respostas democráticas e a resistência
Diante da ascensão neofascista, há também forte resistência. Organizações da sociedade civil, sindicatos, estudantes, grupos antifascistas e artistas têm se mobilizado em defesa da democracia, da memória histórica e dos direitos humanos. Em 2024, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas em várias cidades alemãs em protestos contra a AfD e o avanço da extrema-direita.
Além disso, intelectuais como Enzo Traverso, Susan Neiman e Carolyn Eisenberg vêm alertando sobre a banalização do fascismo e a necessidade de defender a cultura democrática de forma ativa. A vigilância estatal sobre partidos extremistas, embora controversa, tem sido vista como um mecanismo necessário para preservar a Constituição alemã, que proíbe explicitamente movimentos que atentem contra os princípios democráticos.
O Alerta permanece
A Alemanha contemporânea prova que o fascismo não pertence apenas ao passado — ele pode renascer em tempos de crise, vestindo novas roupas, adaptando sua linguagem e se infiltrando pelas brechas do sistema democrático. O neofascismo alemão não é uma aberração isolada, mas parte de uma onda reacionária global, conectada a discursos autoritários na França, Itália, Hungria, EUA e Brasil. Lutar contra o neofascismo é preservar o aprendizado histórico, proteger as minorias e defender a democracia como prática viva — não como uma herança congelada. Porque, como diria Bertolt Brecht: “O ventre ainda é fértil, de onde saiu a besta.”
Neofascismo na Espanha: O Retorno das Sombras Franquistas
A Espanha, marcada por uma das ditaduras mais longas do século XX — o franquismo —, vive hoje uma reconfiguração da extrema-direita que reabilita símbolos, discursos e práticas autoritárias do passado. O neofascismo espanhol, embora tente se apresentar como novidade política, representa uma continuidade disfarçada do autoritarismo nacionalista, católico e repressivo que governou o país de 1939 a 1975. Seu crescimento recente é sintoma de crises mais amplas da democracia liberal, mas também do fracasso em encerrar definitivamente os pactos do passado.
O legado do franquismo: uma transição inconclusa
Ao contrário da Alemanha, onde o nazismo foi derrotado militar e simbolicamente, a Espanha nunca passou por uma “desfranquização” completa. A chamada Transição Democrática (1975–1982), embora tenha estabelecido um regime parlamentar e legalizado partidos políticos, fez concessões significativas à velha ordem — mantendo intactas instituições como o Judiciário, parte da polícia e o aparato militar, além de evitar julgamentos ou punições aos crimes da ditadura.
Esse pacto de silêncio, cristalizado na Lei de Anistia de 1977, impediu que a sociedade enfrentasse plenamente a memória da repressão franquista, do fascismo clerical, do genocídio político e do colonialismo hispânico. Isso abriu espaço para que o nacionalismo autoritário permanecesse latente, pronto para emergir em contextos de crise.
A ascensão de VOX: o neofascismo como projeto político
O principal representante do neofascismo espanhol contemporâneo é o partido VOX, fundado em 2013 por dissidentes do Partido Popular (PP). VOX cresceu rapidamente ao explorar três frentes:
A crise econômica e social, que aprofundou a desigualdade e gerou ressentimentos populares; A crise territorial, especialmente com o movimento independentista catalão de 2017; A chamada “guerra cultural”, com ataques à imigração, ao feminismo, ao movimento LGBTQIA+ e à memória democrática.
O discurso de VOX resgata abertamente o nacional-catolicismo, a exaltação da monarquia, a negação dos direitos das comunidades autônomas e a criminalização da esquerda. Reivindica símbolos franquistas, ataca a Lei da Memória Histórica e defende o revisionismo sobre a Guerra Civil Espanhola (1936–1939), apresentando os fascistas como “salvadores da pátria”.
Além disso, VOX possui vínculos com outras forças de extrema-direita europeias, como Marine Le Pen (França), Giorgia Meloni (Itália) e Viktor Orbán (Hungria), e com movimentos como o espanhol “HazteOír” e o norte-americano “The Heritage Foundation”, expressando um internacionalismo neofascista alinhado ao conservadorismo cristão e ao ultraliberalismo econômico.
Neofranquismo social: repressão, racismo e anti-intelectualismo
O neofascismo na Espanha não se resume à política institucional. Há também um neofranquismo social — uma cultura de intolerância e repressão que se expressa em vários níveis:
Criminalização de protestos e movimentos sociais (com leis como a “Ley Mordaza” de 2015); Aumento da violência policial, sobretudo contra imigrantes, periféricos e manifestantes; Racismo estrutural contra africanos, ciganos, árabes e latino-americanos; Disseminação de fake news, revisionismo histórico e negacionismo nas redes sociais.
Esses elementos revelam a profundidade do projeto neofascista: não se trata apenas de vencer eleições, mas de alterar a cultura democrática, o pacto social e os marcos civilizatórios conquistados desde o fim da ditadura.
Resistência democrática e disputa de memória
Diante dessa ameaça, diversos setores da sociedade civil espanhola têm reagido. Organizações de memória histórica, familiares de desaparecidos do franquismo, movimentos feministas, sindicatos e juventudes antifascistas ocupam as ruas e os debates públicos. A exumação do corpo de Francisco Franco do Vale dos Caídos, em 2019, foi um marco simbólico dessa disputa, embora insuficiente para encerrar o ciclo de impunidade histórica.
Além disso, os pactos parlamentares entre a esquerda (PSOE, Sumar, Podemos) e partidos nacionalistas (ERC, Bildu, PNV) buscaram impedir a chegada da extrema-direita ao poder central — embora VOX já governe em várias comunidades autônomas em aliança com o PP, como Castilla y León e Valência, onde implementa políticas anti-LGBT e anti-imigração, além de tentar retirar educação em diversidade das escolas.
O passado que nunca passou
O neofascismo na Espanha revela a fragilidade de democracias que evitam encarar seus traumas fundacionais. A persistência de símbolos, leis e discursos franquistas demonstra que a transição pós-1975 deixou feridas abertas. VOX e seus aliados representam uma tentativa de restaurar um projeto autoritário, excludente e violento, agora sob as máscaras do “patriotismo” e da “tradição”.
Enfrentar esse perigo exige mais do que frear seu avanço eleitoral. É preciso reconstruir uma cultura democrática profunda, plural e comprometida com a justiça histórica. Porque, como dizia o poeta Antonio Machado:
“Españolito que vienes / al mundo, te guarde Dios; / una de las dos Españas / ha de helarte el corazón.”
Neofascismo em Portugal: O Ressurgimento da Autoridade sob a Sombra do Salazarismo
Durante décadas, Portugal foi considerado uma exceção na Europa quanto à ascensão da extrema-direita — mas essa “imunidade” está em declínio. Nos últimos anos, o avanço de discursos nacionalistas, xenofóbicos e autoritários tem rompido com o consenso democrático pós-Revolução dos Cravos. O neofascismo português, ainda em construção, cresce como reação às mudanças sociais e ao descontentamento com o sistema político, e carrega consigo os ecos do regime salazarista que governou o país com mão de ferro por mais de 40 anos.
A herança salazarista: um fascismo à portuguesa
Portugal viveu, entre 1933 e 1974, o regime autoritário do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar. Embora nem sempre classificado como “fascismo” no sentido estrito, o regime reunia todos os elementos essenciais: autoritarismo, censura, repressão política (via PIDE), culto à nação, corporativismo, colonialismo brutal e catolicismo conservador como doutrina de Estado.
Ao contrário de outros países europeus, o regime não caiu por derrota militar ou julgamento internacional — foi derrubado por um levante popular e militar interno: a Revolução dos Cravos, de 1974. Essa ruptura instituiu a democracia, mas sem um processo profundo de justiça de transição. Assim, figuras, ideias e estruturas do antigo regime permaneceram latentes ou discretamente atuantes por décadas.
O surgimento do neofascismo contemporâneo: o caso do Chega
O partido Chega, fundado em 2019 por André Ventura, representa a principal expressão do neofascismo português atual. Embora Ventura negue essa rotulagem, o discurso do partido carrega vários elementos típicos do neofascismo:
Nacionalismo exacerbado e ataques à Constituição de 1976; Racismo e xenofobia, especialmente contra comunidades ciganas, africanas e imigrantes; Punitivismo radical, com propostas de prisão perpétua, castração química e pena de morte; Antipolítica e antiparlamentarismo, com apelos a uma “nova ordem” e ataque constante aos “políticos do sistema”; Saudosismo salazarista, expresso em falas de reverência ao regime do Estado Novo.
Apesar de sua recente fundação, o Chega já é a terceira força no Parlamento português desde as eleições legislativas de 2024, com crescimento expressivo especialmente entre os mais jovens, setores populares desiludidos com a esquerda institucional e franjas conservadoras do eleitorado.
Estratégias e linguagem: o populismo autoritário
O neofascismo português adota uma linguagem populista, agressiva e midiaticamente eficaz. Ventura, com formação em Direito e passagem pela televisão esportiva, domina as técnicas do discurso simplista, da polarização e da espetacularização. Faz uso constante das redes sociais, denuncia a “corrupção do sistema” e se coloca como “o único que fala o que o povo pensa”.
Essa estratégia cria a figura de um “homem forte” contra a “elite podre”, retomando o imaginário salazarista de ordem, disciplina e “moral cristã”. A defesa de “Deus, pátria e família” volta ao debate público sob o disfarce de moralidade e proteção das tradições.
A sociedade portuguesa e os limites da resistência
Portugal, por muito tempo, sustentou um campo político onde o antifascismo era uma base comum — inclusive para setores moderados. A Constituição de 1976 nasceu de uma ruptura com o fascismo, e a memória da Revolução dos Cravos é símbolo nacional. No entanto, nas últimas décadas, esse consenso começou a se desfazer, à medida que:
A precariedade do trabalho e da juventude se intensificou; O neoliberalismo fragmentou os vínculos comunitários e a confiança no Estado; A crise migratória e o discurso securitário europeu infiltraram-se no debate político português; A cultura política da memória da Revolução perdeu espaço nas escolas, na mídia e na vida cotidiana. Assim, o crescimento do Chega ocorre não apenas por mérito próprio, mas também pelo esvaziamento da educação crítica, pelo recuo do debate sobre justiça social e pela crise da esquerda tradicional.
A democracia como trincheira a ser defendida
O neofascismo em Portugal ainda está em fase de consolidação — mas já mostrou capacidade de enraizamento. Sua ascensão é um alerta: nenhuma democracia está imune ao autoritarismo, mesmo aquela que nasceu de uma revolução popular.
Lutar contra esse projeto exige mais do que denúncia moral: é preciso reconstruir a esperança popular, reocupar o terreno das ideias, investir em educação histórica, combater a desigualdade e reinventar formas de participação cidadã. Como lembrava Zeca Afonso, símbolo da resistência antifascista:
“Eles comem tudo e não deixam nada. Mas há sempre alguém que resiste, sempre alguém que diz não.”
Neofascismo na Hungria: Autoritarismo Contemporâneo e o Desmonte da Democracia
A Hungria, uma das nações da Europa Central mais afetadas pelas transformações pós-Guerra Fria, tornou-se, nas últimas duas décadas, um caso emblemático da ascensão autoritária dentro da própria União Europeia. Sob a liderança de Viktor Orbán e do partido Fidesz, o país não vive um fascismo clássico, com tanques nas ruas e repressão militarizada em massa, mas sim uma versão neofascista institucionalizada — um modelo de governo que subverte o regime democrático por dentro, centraliza o poder, mobiliza o nacionalismo étnico e usa o medo como instrumento político.
Antecedentes históricos: o nacionalismo húngaro e o revisionismo
A Hungria tem um histórico marcado por derrotas e ressentimentos. Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Trianon (1920) reduziu drasticamente seu território e população, deixando milhões de húngaros fora das novas fronteiras nacionais. Esse trauma nacional continua sendo explorado por forças políticas conservadoras, que alimentam um nacionalismo revanchista, identitário e xenofóbico.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Hungria foi aliada do Eixo e colaborou com o regime nazista, inclusive na deportação de judeus para campos de extermínio. Após décadas sob o socialismo de Estado, a transição ao capitalismo nos anos 1990 gerou insegurança econômica, desemprego e desigualdade — solo fértil para o ressentimento social e a busca por bodes expiatórios.
Viktor Orbán e o “modelo húngaro”: um autoritarismo de nova geração
Desde que retornou ao poder em 2010, Viktor Orbán tem construído o que ele próprio chamou de uma “democracia iliberal”. Na prática, isso significou o enfraquecimento deliberado dos pilares do Estado de Direito:
Controle da mídia: o governo e seus aliados controlam a maior parte dos meios de comunicação, promovendo propaganda estatal e silenciando vozes críticas. Judiciário cooptado: reformas constitucionais reduziram a independência dos tribunais, facilitando decisões favoráveis ao Executivo. Educação e cultura ideologizadas: o ensino é cada vez mais moldado por valores cristãos-nacionalistas; autores progressistas e temas como gênero e multiculturalismo são excluídos. Criminalização da dissidência: ONGs, ativistas e acadêmicos são perseguidos, especialmente aqueles que defendem os direitos de refugiados, das mulheres e da comunidade LGBTQIA+.
Esses elementos fazem do regime de Orbán um caso paradigmático de neofascismo moderno: autoritário, populista, legalista na aparência, mas profundamente antidemocrático na prática.
Nacionalismo étnico, antissemitismo e islamofobia
O discurso político dominante na Hungria atual baseia-se em um nacionalismo étnico-cristão, que define o povo húngaro como uma comunidade homogênea e superior, ameaçada por elementos externos. Orbán frequentemente apresenta os imigrantes — especialmente muçulmanos — como “invasores”, defendendo a “preservação da civilização europeia cristã”.
Além disso, o antissemitismo velado também está presente. Um dos alvos principais da propaganda oficial é o bilionário judeu-húngaro George Soros, acusado de conspirar contra a soberania nacional e de querer destruir os valores cristãos por meio do “globalismo” e da imigração. Essas acusações ecoam teorias da conspiração fascistas históricas, como as do “judeu internacional” ou dos “protocolos dos sábios de Sião”.
Conexões com a extrema-direita europeia e global
O regime húngaro tornou-se uma referência para movimentos de extrema-direita em todo o mundo. Orbán é abertamente elogiado por figuras como:
Marine Le Pen (França)
Giorgia Meloni (Itália)
Mateusz Morawiecki (Polônia, PiS)
Steve Bannon (EUA), ex-estrategista de Donald Trump
A Hungria de Orbán participa ativamente da construção de uma internacional reacionária, unindo nacionalismos autoritários sob a bandeira do antiglobalismo, do conservadorismo cultural e do combate à “agenda progressista”.
Reações e resistências
Apesar do controle institucional, há resistência dentro e fora da Hungria. Manifestações estudantis, protestos contra a censura e contra reformas trabalhistas (“lei da escravidão”) ocorreram em Budapeste e em outras cidades. Movimentos feministas, LGBTQIA+ e organizações de direitos humanos mantêm uma luta difícil contra o autoritarismo.
Além disso, instituições da União Europeia vêm impondo sanções e travando batalhas jurídicas contra o governo Orbán, denunciando a erosão da democracia e o desrespeito aos valores fundamentais da UE. No entanto, os mecanismos de punição são lentos e muitas vezes ineficazes, o que permite a continuidade da deterioração democrática.
Uma lição para a Europa e o mundo
O neofascismo na Hungria não é apenas um problema local: é um alerta para o mundo. Viktor Orbán construiu um regime autoritário sem tanques, mas com leis; sem censura formal, mas com controle das ideias; sem perseguições em massa, mas com exclusão sistemática dos indesejáveis.
Seu modelo demonstra que a democracia pode ser corroída por dentro, com aparências legais, mas com uma lógica profundamente antidemocrática. Defender a liberdade exige, portanto, mais do que votar: exige vigiar, lembrar, resistir e agir coletivamente.
Como disse Hannah Arendt, o fascismo moderno não começa com violência em massa, mas com o esvaziamento do sentido das palavras, da verdade e da política como espaço comum. A Hungria de Orbán é a materialização desse processo — e um espelho do que pode acontecer em qualquer lugar, se a vigilância democrática falhar.
Neofascismo nos Países Eslavos: Nacionalismo Étnico, Revisionismo Histórico e Autoritarismo Emergente
O avanço do neofascismo não é exclusividade das potências ocidentais ou dos países do sul global — ele encontra terreno fértil também nos países eslavos, sobretudo nos Bálcãs e na Europa Central e Oriental. Essas nações, marcadas por conflitos étnicos, transições traumáticas do socialismo real ao capitalismo, e uma frágil consolidação democrática, assistem à ascensão de discursos ultranacionalistas, revisionistas e autoritários. Este fenômeno não apenas reatualiza elementos fascistas do século XX, mas os adapta aos contextos contemporâneos de crise, desinformação e ressentimento coletivo.
Heranças históricas: fascismo, comunismo e colapso do socialismo
A maioria dos países eslavos enfrentou experiências totalitárias intensas no século XX: primeiro, com ocupações nazistas ou regimes colaboracionistas durante a Segunda Guerra Mundial; depois, com décadas sob o regime comunista.
Na Polônia, por exemplo, o trauma da ocupação nazista foi seguido por um regime soviético autoritário.
Nos Bálcãs, a antiga Iugoslávia viveu uma experiência socialista autônoma, mas sua fragmentação nos anos 1990 abriu espaço para guerras étnicas, limpezas étnicas, e o renascimento de discursos fascistas.
Na Rússia, o fim da URSS gerou um vácuo ideológico que foi preenchido por um nacionalismo ortodoxo e autoritário.
Em países como Ucrânia, Eslováquia, Sérvia e Croácia, a transição ao capitalismo foi marcada por crises sociais profundas, nostalgia autoritária e reconstrução seletiva da memória histórica.
Esse passado traumático criou condições para que o neofascismo se manifestasse não apenas como nostalgia, mas como “alternativa” a sistemas democráticos frágeis e desacreditados.
Principais traços do neofascismo eslavo contemporâneo
O neofascismo nos países eslavos assume formas variadas, mas compartilha alguns elementos comuns:
Nacionalismo étnico e exclusivista
A identidade nacional é construída com base em traços étnicos e religiosos (geralmente ortodoxos ou católicos), o que leva à marginalização de minorias como romani (ciganos), muçulmanos bósnios, albaneses, judeus, LGBTQIA+ e imigrantes. O lema recorrente é: “nosso povo, nossa pátria, nossos valores”.
Culto à figura do líder e militarismo
Em muitos desses países, há a exaltação de figuras históricas que participaram de regimes fascistas, colaboracionistas ou responsáveis por massacres. Exemplos: A reabilitação de Stepan Bandera (Ucrânia), líder ultranacionalista acusado de colaborar com os nazistas. A exaltação de Milan Nedić e Ante Pavelić, na Sérvia e Croácia, líderes de regimes fascistas locais. O papel cada vez mais central das Forças Armadas e paramilitares nas narrativas nacionais.
Revisionismo histórico
Há um esforço sistemático para reescrever a história, minimizando crimes fascistas ou comunistas quando convém, e exaltando “heróis nacionais” mesmo que estejam manchados por genocídios ou repressão.
Cristianismo político
A Igreja (Ortodoxa ou Católica) é mobilizada como instrumento ideológico. A religião deixa de ser vivência espiritual e torna-se bandeira política para justificar a repressão a minorias e a imposição de uma moral única.
Antiliberalismo e antipolítica
O neofascismo eslavo não necessariamente rejeita eleições, mas sim o pluralismo. Defende um “Estado forte” contra os “traidores liberais, globalistas e progressistas”. Em países como Rússia, Hungria e Polônia, há perseguição aberta à imprensa, ONGs, universidades e movimentos sociais.
Casos específicos e tendências regionais
Rússia
Sob Vladimir Putin, o país promove um neofascismo estatal e militarizado: culto ao líder, controle da mídia, repressão brutal à oposição (como no caso Navalny), perseguição à comunidade LGBTQIA+ e uma guerra na Ucrânia justificada com retórica antinazista — enquanto apoia milícias com simbologia neonazista do próprio lado. O regime utiliza o passado soviético seletivamente e reforça o imperialismo russo como identidade nacional.
Polônia
O partido Lei e Justiça (PiS) instaurou um regime conservador, com forte influência católica e autoritária. Embora o partido não se defina como neofascista, promove políticas racistas, homofóbicas, revisionistas e anti-imigrantes. A juventude fascista organizada — como o grupo ONR (Obóz Narodowo-Radykalny) — realiza marchas com slogans semelhantes aos da década de 1930.
Ucrânia
A guerra contra a Rússia tornou complexa a análise do nacionalismo ucraniano. Embora o Estado seja democrático e plural, há grupos armados com raízes neonazistas, como o Batalhão Azov, que possuem influência simbólica e presença militar. O governo tolera algumas dessas forças por necessidade bélica, mas a questão é delicada e explorada propagandisticamente por Moscou.
Bálcãs (Sérvia, Croácia, Bósnia, Montenegro, etc.)
A fragmentação da Iugoslávia gerou uma explosão de nacionalismos étnicos violentos, cujas consequências ainda são visíveis. Grupos que participaram de massacres ou limpezas étnicas são tratados como heróis nacionais. O fascismo é reabilitado como forma de identidade nacional. A cultura da guerra e da revanche ainda molda a política de muitos países balcânicos.
A crise da democracia liberal e o solo fértil para o neofascismo
Nos países eslavos, a democracia liberal pós-Guerra Fria frequentemente falhou em combater a desigualdade, assegurar justiça de transição e criar uma memória coletiva baseada em valores antifascistas. O avanço do neofascismo é também produto:
Da crise de representatividade política; Da desinformação massiva (via redes e mídia controlada); Da influência russa em setores ultraconservadores; Do abandono das periferias sociais e da juventude.
Além disso, a União Europeia tem se mostrado hesitante ou cúmplice em relação a governos autoritários como os de Hungria e Polônia, o que enfraquece sua própria autoridade moral.
Vigilância antifascista e memória ativa
O neofascismo nos países eslavos revela como o fascismo pode ressurgir não como cópia do passado, mas como atualização de seus princípios fundamentais em novas formas institucionais e simbólicas.
A luta contra esse fenômeno passa por: Educação crítica e memória histórica ativa; Fortalecimento da sociedade civil e da imprensa livre; Conexões internacionais antifascistas que superem a fragmentação; Revalorização da solidariedade entre os povos eslavos — contra o chauvinismo, o racismo e o imperialismo.
A democracia na Europa Oriental e nos países eslavos está sob ataque — e o silêncio também é uma forma de conivência. Resistir é uma urgência histórica.
Neofascismo na Ásia: Autoritarismos Renovados e Nacionalismos Militares
A ideia de neofascismo não pode ser aplicada na Ásia como simples cópia do modelo europeu do século XX. Na região, ela se expressa como um complexo de autoritarismo, etnonacionalismo, repressão política, culto ao líder, militarismo e ódio ao “outro” — seja ele étnico, religioso, ideológico ou estrangeiro. Este fenômeno se adapta a contextos históricos locais, mas compartilha traços com o fascismo histórico: supremacia nacional, violência contra minorias, revisionismo histórico e concentração de poder.
Traços comuns do neofascismo asiático
Ainda que diversos países tenham trajetórias diferentes, o neofascismo na Ásia atual apresenta características estruturais recorrentes:
Culto ao Estado-nação como entidade sagrada e à figura do líder forte (autoridade moral e militar); Repressão sistemática a dissidentes, imprensa e movimentos sociais; Supremacia étnica, religiosa ou cultural, geralmente majoritária; Militarismo e uso da força como instrumento político e simbólico; Reescrita da história para glorificar o passado nacional e apagar crimes de guerra ou coloniais; Uso de valores tradicionais (familismo, religião, disciplina) como mecanismos de controle e identidade coletiva.
Casos emblemáticos por país
🇮🇳 Índia — Hindutva como projeto de Estado
Sob o governo de Narendra Modi e do partido Bharatiya Janata Party (BJP), a Índia tem experimentado uma radicalização autoritária de inspiração fascista. A ideologia do Hindutva (nacionalismo hindu) defende a Índia como nação exclusivamente hindu, marginalizando e perseguindo muçulmanos, cristãos, dalits, mulheres e esquerdistas.
A revogação da autonomia da Caxemira, os linchamentos de muçulmanos, a repressão contra jornalistas e intelectuais, e o culto à figura de Modi — apresentado como líder forte, moral e messiânico — demonstram a arquitetura de um regime neofascista em desenvolvimento, que combina nacionalismo religioso, autoritarismo populista e neoliberalismo repressivo.
🇨🇳 China — Nacionalismo Han e tecnofascismo autoritário
A China sob Xi Jinping vive uma intensificação do controle estatal e da vigilância digital. Embora o Partido Comunista ainda se mantenha como partido único, o que se observa é um regime profundamente nacionalista, expansionista e autoritário, que persegue minorias étnicas e religiosas (especialmente os uigures muçulmanos em Xinjiang, submetidos a campos de reeducação), restringe liberdades e reprime movimentos democráticos, como em Hong Kong.
A propaganda de exaltação da nação Han, o culto à autoridade central, o uso de tecnologia para controle absoluto e a reescrita da história oficial compõem um modelo de “fascismo tecnológico estatal”, com ambições globais.
🇯🇵 Japão — Revisionismo e nacionalismo imperial
Embora o Japão moderno mantenha uma democracia formal, setores importantes da política japonesa — especialmente ligados ao Partido Liberal Democrata (LDP) — promovem um revisionismo histórico que nega os crimes cometidos durante a ocupação imperial (1930–1945), como o massacre de Nanquim ou as “mulheres de conforto” coreanas, chinesas e filipinas exploradas sexualmente pelo Exército Imperial.
O ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, ícone conservador, era defensor da reabilitação do orgulho nacional japonês e do rearmamento militar — medidas populares entre grupos ultranacionalistas como a Nippon Kaigi, que propõem restaurar os valores do “Japão imperial tradicional”.
🇲🇲 Mianmar — Militarismo e genocídio
O golpe de Estado de 2021, liderado pelos militares da Tatmadaw, e a repressão sangrenta aos protestos civis revelaram o caráter profundamente fascista do regime birmanês. Além disso, o genocídio contra a minoria muçulmana rohingya, com apoio tácito de setores budistas extremistas, expõe a lógica de supremacia étnico-religiosa e purificação nacional — traços fascistas evidentes.
🇵🇭 Filipinas — Fascismo popular armado
Sob Rodrigo Duterte (2016–2022), e parcialmente sob sua sucessora Sara Duterte e o atual presidente Bongbong Marcos (filho do ditador Ferdinand Marcos), as Filipinas viveram uma era de autoritarismo populista violento, marcada pela “guerra às drogas” que matou dezenas de milhares de pessoas, com forte apoio popular.
Duterte personificou o líder forte, anti-intelectual, misógino, que promoveu militarismo, repressão à imprensa, culto à família tradicional e autoritarismo como ordem moral. O retorno da família Marcos ao poder marca também o revisionismo histórico do período ditatorial (1972–1986).
🇰🇷 Coreia do Sul — Ultranacionalismo e anticomunismo
Embora seja uma democracia robusta, a Coreia do Sul possui fortes raízes anticomunistas e conservadoras, herança da Guerra Fria. Movimentos neofascistas aparecem sob a forma de grupos anticomunistas radicais, cultos cristãos ultraconservadores, militaristas nostálgicos da ditadura de Park Chung-hee (1961–1979), e xenófobos contrários a refugiados e imigrantes.
Neofascismo islâmico? Uma observação crítica
Em alguns países da Ásia Central e do Sul (como Paquistão, Afeganistão, Irã), regimes autoritários e teocráticos reprimem mulheres, dissidentes, minorias religiosas e opositores com violência brutal. Apesar de não se encaixarem nos moldes tradicionais do fascismo europeu, tais regimes partilham elementos funcionais do neofascismo: controle total do Estado, culto ao líder, repressão moral, exclusivismo ideológico e uso da religião como arma de dominação. Globalização, capitalismo e o solo fértil do neofascismo asiático
A globalização neoliberal ampliou desigualdades, crises urbanas, insegurança alimentar e deslocamentos forçados — criando o terreno perfeito para discursos fascistas e autoritários em vários países da Ásia.
O fracasso da democracia liberal em promover justiça social; O vazio ideológico deixado pela queda dos regimes comunistas; A desvalorização das culturas indígenas e não-ocidentais, acompanhada de reações nacionalistas violentas; O uso da religião (budismo, islamismo, hinduísmo, cristianismo) como fundamento de pureza nacional.
Esses fatores explicam por que o neofascismo asiático não se limita a cópias do modelo europeu, mas expressa formas próprias, adaptadas à tradição local, à modernidade tecnológica e às crises atuais.
Vigilância global contra os novos autoritarismos
O neofascismo na Ásia mostra que o fascismo não é apenas uma ideologia europeia do passado, mas uma estratégia contemporânea de dominação política, cultural e econômica, que pode surgir em diferentes contextos e com diversas máscaras: religiosas, nacionalistas, tecnocráticas ou populistas.
Resistir a essas forças exige:
Solidariedade internacionalista entre povos oprimidos; Educação crítica, feminista e antirracista; Memória histórica dos genocídios, das ditaduras e das lutas populares asiáticas; E o compromisso ativo com modelos de democracia mais radicais, justos e participativos.
A Ásia não é apenas um palco de neofascismos — também é um continente de revoluções populares, resistências indígenas e alternativas ao modelo ocidental de dominação. É neste campo de tensões que se joga o futuro da liberdade global.
Neofascismo na África: Autoritarismo, Etnonacionalismo e o Refluxo da Esperança Democrática
Quando se fala em neofascismo, o foco costuma recair sobre a Europa, as Américas ou a Ásia. No entanto, o continente africano também vive formas específicas de neofascismo, enraizadas em suas próprias experiências históricas: o colonialismo europeu, o apartheid, a descolonização violenta, os regimes militares, e a transição inacabada para democracias populares. O fascismo africano não surge como cópia dos modelos europeus dos anos 1930, mas como uma recombinação de autoritarismo, ultranacionalismo, militarismo, discurso de pureza nacional ou religiosa, e repressão estatal a minorias e dissidências.
Contexto histórico: entre o colonialismo e o autoritarismo pós-independência
A África foi, durante séculos, território de dominação colonial. Os regimes coloniais já funcionavam como sistemas fascistas raciais, impondo hierarquias brutais, segregação, exploração forçada e repressão das culturas locais. Em muitos casos, a transição para a independência nacional não desmantelou essa lógica de poder, apenas substituiu os colonizadores por elites locais autoritárias.
Regimes como os de Idi Amin (Uganda), Mobutu (Zaire/Congo), Bokassa (República Centro-Africana), Mengistu (Etiópia), entre outros, apresentaram características de um fascismo africano clássico: culto à personalidade, repressão violenta, militarismo, supremacia étnica e uso do medo como ferramenta de governo.
Com a onda de democratizações nas décadas de 1990 e 2000, muitos acreditaram que esse ciclo estava encerrado. No entanto, o fracasso dos Estados neoliberais, a persistência da pobreza, a violência étnica e o imperialismo neocolonial criaram terreno fértil para uma nova geração de autoritarismos: o neofascismo africano contemporâneo.
Traços do neofascismo africano atual
Embora variem segundo o país e o contexto, os traços estruturais do neofascismo na África incluem:
Nacionalismo etnocêntrico (baseado em uma etnia, religião ou “povo autêntico” como fonte de legitimidade); Militarização da política e do cotidiano, com presença das Forças Armadas como núcleo do poder; Repressão a opositores políticos, movimentos civis, jornalistas, estudantes e artistas; Discurso de purificação nacional ou cultural, com perseguições a grupos minoritários, LGBTQIA+, estrangeiros ou dissidentes religiosos; Uso de símbolos tradicionais como justificativa de ordem moral, muitas vezes articulados com religião e costumes patriarcais; Reescrita da história nacional, apagando lutas populares, revoluções anticoloniais e os crimes das elites.
Casos emblemáticos
🇷🇼 Ruanda — Autoritarismo pós-genocídio
Após o genocídio de 1994, Paul Kagame, líder da Frente Patriótica Ruandesa, assumiu o poder com apoio internacional. Desde então, criou um regime centralizado, repressivo e altamente militarizado. A narrativa do genocídio tutsi é usada como escudo contra qualquer crítica. O governo implementa um discurso de unidade nacional coercitiva, onde falar sobre etnia é proibido, mas o Estado exerce controle total sobre a memória, a mídia, a oposição e a sociedade civil.
🇺🇬 Uganda — Repressão, moralismo e culto ao líder
O presidente Yoweri Museveni, no poder desde 1986, consolidou um regime autoritário de viés neofascista. Recentemente, aprovou uma das leis anti-LGBTQIA+ mais brutais do mundo, com pena de morte para “homossexualidade agravada”. O discurso é baseado na defesa da “tradição africana”, da moralidade religiosa e da pureza nacional — traços típicos do fascismo social.
🇸🇩 Sudão — Neofascismo islâmico-militar
Desde a década de 1990, o Sudão viveu sob regimes de islamismo autoritário e etnocêntrico, com o uso da religião como base para repressão de minorias (como cristãos, negros do sul e não-árabes de Darfur). O massacre em Darfur e a guerra civil foram exemplos extremos de purificação nacional, promovida pelo Estado em nome da identidade cultural árabe-islâmica.
🇿🇦 África do Sul — Xenofobia e fascismo social
Embora mantenha um sistema democrático, a África do Sul enfrenta crescimento da xenofobia violenta contra migrantes africanos, especialmente zimbabuanos e moçambicanos. A crise do ANC e o desmonte da memória do apartheid criaram um vácuo ocupado por discursos nacionalistas, violentos e excludentes, especialmente em setores populares. A criminalização da pobreza e o ressentimento racial-cruzado revelam tensões neofascistas latentes.
🇲🇱 / 🇧🇫 / 🇳🇪 Sahel — Golpes militares e discursos de pureza antiocidental
Os recentes golpes de Estado no Mali, Burkina Faso e Níger expressam uma radicalização militarista e nacionalista. Embora surjam como reação legítima ao neocolonialismo francês e ao fracasso do liberalismo imposto, alguns desses regimes apresentam traços neofascistas: culto ao Exército, fechamento do espaço político, perseguição à imprensa, discursos de pureza cultural e uso da força como instrumento regenerador.
O papel da religião e da tradição
Em muitos casos, o neofascismo africano se apoia em interpretações autoritárias da religião (cristianismo evangélico, islamismo ou religiões tradicionais). Elas são mobilizadas para:
Reprimir mulheres, juventudes e dissidentes; Justificar leis moralistas e patriarcais; Reafirmar valores de autoridade, obediência e hierarquia; Rejeitar direitos humanos como “imposição ocidental”.
Essa fusão de política, religião e moral é uma característica central do neofascismo africano contemporâneo.
- Resistência e esperanças africanas
Apesar desse cenário, a África é também continente de intensas lutas populares, desde a luta anticolonial até os atuais movimentos de juventude, mulheres, trabalhadores e indígenas urbanos.
EndSARS na Nigéria;
Movimentos feministas e LGBTQIA+ no Quênia, África do Sul, Uganda;
Redes antiautoritárias e culturais no Senegal, Burkina Faso e Angola.
A resistência ao neofascismo africano não vem só da oposição partidária, mas da cultura, da ancestralidade e da juventude rebelde, que desafia tanto o autoritarismo interno quanto o neocolonialismo externo.
O fascismo com rosto africano
O neofascismo na África é real — não como uma cópia do modelo europeu, mas como resposta autoritária às crises de soberania, identidade e justiça social que afligem o continente. Ele se veste com trajes locais: religião, tradição, militarismo, “ordem africana”. Mas sua lógica é a mesma: poder concentrado, repressão às diferenças e culto à pureza nacional.
Resistir ao neofascismo na África passa por:
Revalorização das lutas anticoloniais e populares; Educação crítica e decolonial; Organização autônoma dos povos e territórios; Construção de alternativas radicais, africanas, feministas e libertárias.
Como diria Thomas Sankara:
“A revolução e a libertação do povo africano só podem ser obra do próprio povo africano.”
Neofascismo nos Estados Unidos: supremacia branca, populismo autoritário e o cerco à democracia :
Os Estados Unidos, muitas vezes retratados como bastião da democracia liberal, enfrentam uma ameaça interna crescente: o neofascismo. Essa forma contemporânea de autoritarismo não é apenas marginal ou “underground” — ela já alcançou o centro do poder político, cultural e midiático, especialmente com a ascensão de Donald Trump e o fortalecimento da extrema-direita. O neofascismo estadunidense mistura racismo estrutural, nacionalismo messiânico, culto ao líder, negação da ciência e da verdade, e glorificação da violência — compondo um projeto perigoso de desmonte institucional e guerra cultural.
Fascismo americano: raízes históricas e permanências
O fascismo nos Estados Unidos não nasceu com Trump. Ele tem raízes profundas:
A escravidão racial como fundação econômica e ideológica do país; O genocídio indígena e o expansionismo territorial (Destino Manifesto); A supremacia branca organizada no Ku Klux Klan, desde o século XIX; O macarthismo, nos anos 1950, como caça às bruxas ideológica; O apoio histórico a regimes fascistas ou ditatoriais no exterior (América Latina, Oriente Médio, Ásia); A militarização da vida cotidiana, da polícia e das fronteiras.
Esses elementos formam um “fascismo social” permanente, que precede e transcende a política formal.
A era Trump: populismo neofascista institucionalizado
Com a eleição de Donald Trump em 2016, e a preocupante reeleição em 2025 . O neofascismo rompeu com sua marginalidade e se tornou linguagem de Estado. O trumpismo não se reduz a uma figura: é um movimento de massas, com base social consolidada, ideologia própria e vocação autoritária.
Traços fascistas do trumpismo:
Supremacismo branco explícito ou velado (ataques contra muçulmanos, latinos, negros, indígenas); Antissemitismo camuflado, via teorias da conspiração (como as acusações a George Soros); Negação da ciência e da verdade (negacionismo climático e da pandemia); Culto ao líder como figura infalível, messiânica, “inimigo do sistema”; Discurso da violência como “autodefesa”, com estímulo a grupos armados, milícias e policiais; Deslegitimação da democracia eleitoral, como no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Esse movimento se mantém vivo, influente e ativo — e ameaça retornar ao poder com força ainda maior.
Milícias, redes e guerra cultural
O neofascismo americano é descentralizado e multifacetado. Ele se articula através de:
Grupos armados
Como os Proud Boys, Oath Keepers e Boogaloo Movement, que defendem abertamente a derrubada do governo federal por meio da força armada. São organizados, treinados, com base ideológica supremacista e patriarcal.
Fundamentalismo cristão
Igrejas evangélicas conservadoras são aliadas estratégicas do neofascismo, promovendo moralismo sexual, homofobia, machismo e negação do laicismo, com forte presença em escolas, tribunais e mídias locais.
Teorias da conspiração
Como o QAnon, que une ideias absurdas com paranoia anticomunista, antissemitismo disfarçado, pedofilia satânica e culto a Trump como salvador da nação.
Mídia de extrema-direita
Veículos como Fox News, Breitbart, InfoWars e influenciadores digitais ajudam a criar uma bolha informacional onde a realidade é distorcida para legitimar o autoritarismo e o medo do “inimigo interno”.
Neofascismo como guerra racial e cultural
O neofascismo nos EUA é, antes de tudo, um projeto de supremacia branca reconfigurado. Ele se manifesta por meio de:
Leis anti-imigração (muro com o México, deportações em massa); Ataques aos direitos civis (direito ao voto de negros, trans, pobres); Proibição de ensino crítico da história racial (banimento da Critical Race Theory); Repressão a protestos como Black Lives Matter; Criminalização de movimentos indígenas, ecológicos e anticapitalistas.
Esse projeto se sustenta sobre o mito do “americano branco trabalhador” como vítima do “Estado globalista”, dos imigrantes, dos progressistas, da diversidade.
Conexões globais: o trumpismo como internacional reacionária
O neofascismo estadunidense inspirou e se articula com lideranças globais da extrema-direita, como:
Bolsonaro no Brasil;
Giorgia Meloni na Itália;
Viktor Orbán na Hungria;
Narendra Modi na Índia;
Marine Le Pen na França.
Além disso, estrategistas como Steve Bannon atuam ativamente na construção de uma internacional ultraconservadora, que une cristianismo político, nacionalismo autoritário e antiglobalismo conspiratório.
Resistência e futuro
Apesar da ascensão do neofascismo, os Estados Unidos também são território de resistência histórica:
Movimentos negros (Black Lives Matter, Malcolm X, Angela Davis); Lutas indígenas (Standing Rock, contra oleodutos e mineração); Sindicatos e movimentos socialistas democráticos (como o Democratic Socialists of America); Feminismos radicais, queer e anticapitalistas; Intelectuais críticos como Noam Chomsky, Cornel West, Keeanga-Yamahtta Taylor, Naomi Klein e bell hooks.
A democracia nos EUA é frágil, mas não está derrotada. A luta pela justiça racial, climática e de classe ainda mobiliza milhões.
O fascismo com bandeira e hino
O neofascismo nos Estados Unidos não veste uniforme militar, mas camiseta patriótica. Ele não precisa de golpe de Estado — atua de dentro das instituições, distorcendo-as, contaminando-as, e corroendo a confiança pública.
Como alertava Umberto Eco, o fascismo eterno pode se esconder sob diferentes máscaras: nos EUA, ele se apresenta com o rosto do colono, do policial, do pastor fanático e do empresário.
Combater esse projeto exige memória histórica, organização popular, alianças interseccionais e luta radical pela democracia real. O fascismo não virá de botas — ele já entrou pela porta da frente.
Neofascismo na América Latina: autoritarismo reciclado, colonialismo interno e guerra cultural
A América Latina vive, no século XXI, uma reconfiguração das velhas formas de autoritarismo sob a aparência de novidade: o neofascismo. Longe de ser mera cópia dos modelos europeus dos anos 1930, o neofascismo latino-americano reformula as heranças da ditadura, do colonialismo, do racismo estrutural, do patriarcado e da teocracia, dando-lhes nova força através de discursos “morais”, “anticorrupção”, “antissistema” e “de ordem”. Esse fenômeno está em ascensão em diversos países e representa uma ameaça real à democracia, à justiça social e aos direitos humanos.
Raízes históricas do autoritarismo latino-americano
O solo fértil do neofascismo atual foi preparado por séculos de violência estruturante:
O colonialismo ibérico, que instaurou hierarquias raciais, patriarcais e teocráticas; O latifúndio e a exclusão social massiva, herdados e mantidos até hoje; As ditaduras militares do século XX, apoiadas por elites locais e pelos EUA, que perseguiram, torturaram e assassinaram milhares de opositores; A impunidade dos crimes da ditadura, que nunca foram completamente julgados em países como Brasil e Chile.
Esses elementos nunca foram completamente desmantelados — apenas transformados em novas linguagens, novos partidos, novos mitos.
Características do neofascismo latino-americano
O neofascismo na região não depende de um modelo único. Ele assume múltiplas formas, mas mantém uma lógica comum:
Nacionalismo excludente: define a “nação” a partir de critérios religiosos, raciais, de classe e moralidade sexual, excluindo indígenas, negros, mulheres, LGBTQIA+, migrantes e pobres. Religião como arma política: crescimento do cristofascismo, com igrejas evangélicas ou católicas ultraconservadoras influenciando diretamente governos, parlamentos e cortes. Militarismo e culto à violência: exaltação das polícias, do exército, do armamento civil e da “justiça pelas próprias mãos”. Anticomunismo paranoico: qualquer crítica ao sistema é tachada de “comunismo”, “terrorismo”, “marxismo cultural”. Guerra cultural: censura ideológica a professores, artistas e jornalistas; perseguição à educação sexual, história crítica, direitos das mulheres e pautas identitárias. Reescrita da história: reabilitação de ditadores, apagamento de massacres, perseguição à memória popular.
Casos emblemáticos por país
🇧🇷 Brasil — Bolsonarismo como neofascismo tropical
O governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) foi a expressão mais clara do neofascismo latino-americano recente:
Glorificação da ditadura militar (1964–1985); Apologia da tortura e dos torturadores (como Ustra); Negacionismo da pandemia, do racismo e da ditadura; Violência contra indígenas, mulheres, LGBTQIA+ e ativistas ambientais; Fortes vínculos com o fundamentalismo evangélico e as polícias militares; Discurso constante de golpe e deslegitimação das eleições; Incitação à violência armada e tentativa de autogolpe (8 de janeiro de 2023).
O bolsonarismo sobrevive mesmo fora do poder, como movimento social, ideológico e cultural — e mantém ampla base popular e financiamento. E este é o fato mais preocupante , pois muito de nós achávamos que o Bolsonarismo cairia por terra com o fim de seu líder no poder , mas o que aconteceu foi ao contrário , ele não só sobreviveu como continua operando como um fenômeno que tínhamos receio de dizer , Neofascista
🇸🇻 El Salvador — Bukele e o fascismo digital
Nayib Bukele, presidente salvadorenho, tem adotado um modelo de autoritarismo pop e hipermidiático, com:
Suspensão de liberdades civis sob estado de exceção permanente; Prisões em massa sem julgamento; Culto à sua figura como líder salvador messiânico; Controle sobre os demais poderes e militarização da política; Alianças com igrejas conservadoras e discursos moralistas.
Esse modelo, chamado por muitos de “fascismo digital”, combina tecnologia, redes sociais, repressão e carisma autoritário.
🇨🇱 Chile — negacionismo e elite reacionária
Apesar dos avanços da esquerda, setores da elite chilena e da extrema-direita (como o partido Republicano, de José Antonio Kast) defendem abertamente:
A herança de Pinochet; A criminalização dos Mapuche; A repressão violenta contra protestos populares; A negação das violações de direitos humanos da ditadura.
O plebiscito de 2023, que rejeitou uma nova constituição mais progressista, mostrou o peso simbólico da extrema-direita e sua capacidade de mobilização neofascista.
🇦🇷 Argentina — revisionismo liberal-fascista com Milei
Javier Milei, atual presidente, mistura liberalismo econômico extremado com autoritarismo institucional e simbólico. Apesar de se dizer “anarcocapitalista”, ataca sistematicamente:
A memória dos 30 mil desaparecidos pela ditadura; Os movimentos sociais, feministas, sindicalistas e de direitos humanos; A educação pública e a cultura crítica; A política como espaço coletivo — substituindo-a pela lógica da empresa e do lucro.
A aliança com a vice-presidente Victoria Villarruel, defensora aberta de militares da ditadura, reforça o viés revisionista e reacionário do governo.
O papel da religião: cristofascismo e moralismo autoritário
O cristofascismo tem ganhado protagonismo em vários países da região. Igrejas evangélicas neopentecostais, em especial, se articulam com projetos de extrema-direita para:
Reprimir corpos dissidentes (mulheres, LGBTQIA+); Impor moralidade sexual autoritária; Censurar conteúdos escolares e culturais; Apoiar projetos de poder patriarcais, racistas e capitalistas.
O nome de Deus é invocado para justificar ódio, repressão, guerra e exclusão — distorcendo completamente a espiritualidade popular latino-americana.
Fascismo social e a naturalização da violência
Mesmo onde não há governos neofascistas formais, a região enfrenta um “fascismo social” cotidiano, como diria Boaventura de Sousa Santos:
Extermínio da juventude negra e indígena nas periferias; Criminalização da pobreza e da luta por terra e moradia; Genocídio ambiental na Amazônia e no Cerrado; Violência policial com apoio popular; Medo como forma de governar e alienar.
Esse fascismo cotidiano não depende de ideologia: ele é sistêmico, estrutural e normalizado.
Resistência: onde há neofascismo, há também luta
A América Latina é, historicamente, também território de resistência, organização popular, memória e esperança. Contra o neofascismo, erguem-se:
Movimentos de mulheres e dissidências sexuais; Comunidades indígenas e quilombolas; Coletivos culturais periféricos; Movimentos estudantis, sindicais e camponeses; Redes de comunicação popular e imprensa independente; Lutas por memória, verdade e justiça.
Essas forças enfrentam a repressão com arte, política, espiritualidade, solidariedade e organização — e representam a principal barreira popular contra o avanço autoritário.
A luta pela democracia radical e popular
O neofascismo na América Latina não é “importado” — ele nasce das entranhas coloniais, escravistas e elitistas de nossas sociedades, com novos nomes, bandeiras e discursos. Combatê-lo não é apenas defender as democracias liberais — é reconstruir o continente a partir da justiça social, da igualdade racial, da soberania dos povos e da solidariedade popular.
Como dizia Marielle Franco:
“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”
E como dizia Che Guevara:
“Se você é capaz de tremer de indignação diante de qualquer injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Neofascismo no Brasil: do integralismo ao bolsonarismo — violência, exclusão e resistência urgente
O Brasil vive, nas últimas décadas, um perigoso processo de fascistização da política, da cultura e da vida social. O que parecia ser um fenômeno marginal — ideias extremistas, grupos armados, discursos de ódio — se tornou, com o bolsonarismo, uma força de massa com poder institucional, apoio empresarial, base religiosa e influência internacional. O neofascismo brasileiro é real, multifacetado e representa uma ameaça direta à democracia, à dignidade humana e à justiça social.
Esse processo não nasceu do nada. Ele tem raízes profundas no autoritarismo histórico do Brasil, que vão desde o colonialismo e a escravidão até o integralismo da década de 1930. Hoje, esse fascismo se reorganiza com novas linguagens, mas com a mesma essência: o culto à violência, o ódio ao diferente, o moralismo repressivo e a obsessão por “ordem”.
As raízes: o integralismo e a formação do autoritarismo nacional
O primeiro fascismo brasileiro surgiu formalmente com a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada por Plínio Salgado em 1932. Inspirado diretamente no fascismo de Mussolini, o integralismo defendia:
Um Estado forte, autoritário e moralizador;
A ideia de “nação orgânica”, contra o marxismo, o liberalismo e o judaísmo;
Um nacionalismo místico, cristão e militarizado;
A perseguição a comunistas, imigrantes e qualquer forma de dissidência cultural.
Vestidos com uniformes verdes, os integralistas marchavam, gritavam “Anauê!” e idealizavam uma pátria purificada da “degeneração moral e racial”.
Apesar de ter sido dissolvida em 1937, a AIB deixou herdeiros. Seus símbolos, ideias e práticas influenciaram parte da elite, da direita católica, do Exército e dos grupos anticomunistas ao longo do século XX — especialmente durante a ditadura militar (1964–1985).
O bolsonarismo como expressão do neofascismo brasileiro
O bolsonarismo não é um simples populismo de direita. Trata-se de uma forma nativa de neofascismo, com base social, discurso ideológico, culto ao líder e lógica de guerra permanente. Ele reorganiza diversas forças autoritárias e excludentes: militares, religiosos, empresários, milicianos, ruralistas, fundamentalistas digitais e setores das polícias.
Seus principais traços fascistas incluem:
Culto à violência como solução moral (extermínio de inimigos, “bandido bom é bandido morto”); Racismo estrutural e declarado (ataques a indígenas, quilombolas, negros, nordestinos, imigrantes); Patriarcado como valor central, com misoginia, homofobia e antifeminismo como bandeiras; Rejeição à democracia, às instituições e às eleições (vide o 8 de janeiro de 2023); Militarização da política, com presença ostensiva de generais e policiais no governo; Cristofascismo, com o uso da religião para justificar políticas de opressão, censura e negação de direitos; Negação da ciência, da arte e da educação crítica; Mentiras sistemáticas, teorias conspiratórias e culto à ignorância.
O bolsonarismo representa a atualização do integralismo, agora com redes sociais, fake news, bancada evangélica, milícias armadas e mercado financeiro ao seu lado.
O fascismo brasileiro como sistema: violência cotidiana e opressão histórica
O neofascismo no Brasil não é só um projeto político de cúpula. Ele vive no cotidiano, sustentado por um sistema que naturaliza a morte, o abandono e a repressão de milhões de pessoas.
Isso se expressa em:
Extermínio da juventude negra nas periferias, com apoio das forças policiais e da mídia; Violência contra indígenas e quilombolas, em nome do agronegócio e da mineração; Criminalização da pobreza, com encarceramento em massa e remoções urbanas; Odio institucional contra pessoas LGBTQIA+, travestis e mulheres trans; Repressão a professores, artistas, movimentos sociais, defensores de direitos humanos; Censura cultural, destruição de acervos, desmontes das universidades e dos espaços públicos de saber.
O bolsonarismo não inventou essas violências — ele apenas deu a elas um rosto, um nome, um discurso e uma autorização moral.
A ameaça fascista permanece: golpe, impunidade e reorganização
Apesar da derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022, o projeto neofascista não foi derrotado. Ele segue atuando em várias frentes:
Reorganização partidária e parlamentar (com bancada ampla no Congresso); Domínio sobre igrejas evangélicas e redes de comunicação; Influência nas Forças Armadas e polícias militares; Apoio financeiro de setores empresariais e agroindustriais; Atuação nas escolas, famílias, redes digitais e canais alternativos de cultura e desinformação.
A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 mostrou que o neofascismo brasileiro está disposto a romper com qualquer forma de legalidade democrática para manter seus privilégios e seu projeto de poder.
A urgência da resistência e da luta
O neofascismo no Brasil é um projeto ativo, articulado e em expansão. Ele se alimenta da violência histórica, da desigualdade, do racismo, do ódio, do medo e do ressentimento. Ele quer aniquilar a democracia, os direitos, as lutas populares e qualquer forma de emancipação coletiva.
Resistir a esse projeto é urgente e inadiável. É preciso:
Organizar os movimentos populares, antirracistas, feministas, indígenas, LGBTQIA+, estudantis e sindicais; Fortalecer a cultura crítica, a arte, a memória e a educação libertadora; Confrontar o fascismo não só nas urnas, mas nas ruas, nas redes, nas igrejas, nas escolas e nos territórios; Construir alternativas políticas radicais, populares, democráticas e enraizadas nas maiorias oprimidas.
Como disse Paulo Freire:
“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”
E como gritavam as ruas em 2018:
“O fascismo não passará!”
Que não passe. Que seja enfrentado — com coragem, consciência e organização.
E como nós do PANTERA fazemos questão de sempre dizer : Não deixe que a realidade te abata , deixe que ela te radicalize ! chegou a hora de rugir ! chegou a hora de lutar ! Fascismo nunca mais .
