Ou: o dia em que o Sítio do Picapau Amarelo foi cercado por grades de eugenia e racismo estrutural.
Se você cresceu no Brasil, provavelmente ouviu falar de um tal de Monteiro Lobato. Talvez tenha lido Reinações de Narizinho, rido com a rabugice do Visconde de Sabugosa, ou tentado entender se o Saci era mesmo do bem. Lobato é onipresente: em escolas, bibliotecas, adaptações televisivas e discursos sobre “a grande literatura infantil brasileira”.
Mas como toda entidade cultuada em demasia, Monteiro Lobato tem um lado B. E nesse caso, não é apenas um lado sombrio — é um abismo moral disfarçado sob o verniz do progresso, do civismo e da “brasilidade”. Prepare-se, porque o passeio pelo Sítio vai ser menos nostálgico e mais ácido. Afinal, entre o público e o privado, Monteiro Lobato era uma bomba pronta para educar… e para alienar.
Monteiro Lobato: um ícone nacional… eugenista
José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em 1882, em Taubaté, São Paulo — coração do conservadorismo rural, berço do “café com leite” e do nacionalismo paternalista. Formou-se em Direito, foi fazendeiro, editor, embaixador nos EUA e um dos fundadores da literatura infantil brasileira. O que não te contaram na escola é que Lobato também foi um entusiasta declarado da eugenia, defensor da “melhoria da raça” e crítico ácido da miscigenação brasileira, que considerava um obstáculo para o “progresso civilizatório”.
Sim, meu bem, enquanto você lia sobre a boneca Emília e os contos infantis “brasileiros”, Lobato escrevia cartas elogiando Hitler antes do nazismo entrar na moda do cancelamento.
A literatura infantil que formou o imaginário nacional — e o racismo estrutural também
A genialidade literária de Lobato é indiscutível — ele inovou, misturou oralidade, folclore, personagens carismáticos e criou um universo simbólico inesquecível. Mas a pergunta é: a serviço de quê e de quem?
Personagens como Tia Nastácia, a cozinheira negra do Sítio, são tratados sistematicamente com estereótipos racistas, desde as falas caricatas até os episódios em que é comparada a animais ou retratada como inferior intelectualmente. Em um dos livros, Emília diz que ela deve ter “origem na raça dos macacos”. O Saci, por sua vez, é domesticado — a entidade poderosa das florestas vira um mascote travesso para divertir os brancos.
Não é à toa que a figura do negro em Lobato está sempre atrelada ao serviço, ao corpo, à superstição. A crítica à ignorância não era feita ao sistema educacional, mas à “raça ignorante”, na visão torpe do autor. A leitura de Lobato educou gerações de crianças brancas a verem o negro como ajudante, como folclore, como algo “pitoresco”. E isso tem nome: colonialismo cultural disfarçado de literatura infantil.
Privado e Público: o intelectual e o homem de ideias… perigosas
Lobato não escondia suas ideias. Foi um crítico ferrenho do governo de Getúlio Vargas, defensor do petróleo brasileiro (sim, “O petróleo é nosso”), e promoveu o livro como instrumento de formação da juventude. Mas isso tudo vinha junto com um projeto ideológico: uma nação branca, europeizada, onde negros e indígenas deveriam ser “educados” ou “diluídos” pela mestiçagem controlada.
Como embaixador nos EUA, Lobato babava nos pés do modelo industrial racista norte-americano, criticando o Brasil por não ter “energia branca” suficiente. E quando você acha que não pode piorar, descobre que ele trocava cartas com figuras do movimento eugenista, usando termos como “degeneração racial” com naturalidade de quem fala sobre café da manhã.
Cultura, memória e responsabilidade: separar autor da obra?
Sempre que alguém levanta críticas legítimas à figura de Monteiro Lobato, aparece o coro dos “defensores da arte”. Dizem: “Mas ele era um homem do seu tempo!”. Como se o tempo fosse uma entidade maligna que obriga autores a serem racistas, misóginos ou elitistas. Spoiler: também havia intelectuais, artistas e escritores da época que combatiam esses preconceitos — só não tiveram espaço nas editoras que Lobato monopolizava.
Separar autor da obra é um debate complexo. Mas ignorar a ideologia por trás da obra é, no mínimo, ingênuo — no máximo, cúmplice. A leitura crítica não precisa cancelar Lobato, mas precisa desmitificá-lo. Educar sem questionar é doutrinação. E doutrinar com personagens que perpetuam estruturas racistas é… bem, o que temos feito há um século.
Sítio do Picapau Amarelo ou cercadinho do pensamento reacionário?
Monteiro Lobato moldou a literatura brasileira. Sua influência é real. Mas parte dessa influência foi tóxica, e permanece invisível porque está normalizada. O Brasil é um país que resiste em rever seus mitos fundadores, seus heróis duvidosos e seus “educadores” públicos que, no privado, desejavam uma nação embranquecida e eugenicamente purificada.
É preciso revisitar essas figuras com olhos atentos. Porque talvez o grande vilão do Sítio do Picapau Amarelo nunca tenha sido a Cuca — mas o próprio criador do sítio.
